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Perda de água tratada: o desafio invisível das tubulações

Publicado em: 17/10/2025 20:02

Cerca de 43,7? água tratada em Concórdia se perde antes de chegar às torneiras. Modernização do sistema e conscientização são alternativas para comba

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Em Concórdia, 43,7% da água tratada se perde no caminho antes de chegar às torneiras das residências, empresas e outros estabelecimentos. A realidade é antiga e, dentre as causas, destacam-se: rede de distribuição obsoleta, vazamentos ocultos, tubulações desgastadas e ligações clandestinas, além de outras ações que fazem com que boa parte da água tratada seja desperdiçada. Essas falhas no sistema resultam em um elevado índice de desperdício, além de gerar custos adicionais com operação e consumo de energia.

Segundo informado no edital de concessão dos serviços de saneamento da cidade de Concórdia, em janeiro deste ano, as perdas de água tratada no município, avaliadas pela Casan à época, estavam estimadas em 53%. Portanto, bem acima da média nacional que é de 37,78%, conforme dados de 2024 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).

Com uma topografia acidentada e solo rochoso, levar água tratada sem intercorrências pelo caminho se torna um desafio. De acordo com a Concórdia Saneamento - formada pela parceria entre a GS Inima Brasil e a Traçado Construções - concessionária responsável pelos serviços de água e esgoto, a maior parte dessas perdas está relacionada a vazamentos subterrâneos. “Desde 28 de janeiro, quando assumimos os serviços na cidade, já consertamos cerca de 1.400 vazamentos na rede, entre aparentes e ocultos. Com esse trabalho e outras ações, as perdas foram reduzidas em 17,5%, chegando a 43,7% da água tratada, conforme dados de setembro”, informa a empresa.

O contrato firmado com a Prefeitura de Concórdia previa reduzir as perdas a 50% até 2025, meta que segundo a Concórdia Saneamento, já foi superada. Para 2026, a previsão é atingir 40% e chegar a 25% até 2030. O desafio, no entanto, vai muito além dos números.

Impacto ambiental e financeiro

A água tratada é captada em mananciais locais, 85% do Rio Jacutinga e 15% do Rio Suruvi, e passa por processos que demandam energia, insumos químicos e infraestrutura. Quando se perde antes de ser consumida, o impacto ambiental é ampliado, comprometendo a sustentabilidade do sistema e a disponibilidade futura do recurso.

Para o professor Jairo Marchesan, doutor em Geografia da Universidade do Contestado - UNC Concórdia, reduzir as perdas de água exige não apenas investimentos técnicos em infraestrutura, mas, também consciência e prática social. “Afinal a água distribuída percorre um longo caminho, desde a captação até o usuário final. Cerca de 80% é retirada do Rio Jacutinga, pertencente à bacia hidrográfica de mesmo nome. Isso implica em transposição de água da Bacia Hidrográfica do Rio Jacutinga para a Bacia do Rio dos Queimados onde está situada a maior parte da cidade de Concórdia. Deste modo, os custos são elevados de energia, logística, tratamento e distribuição”, explica.

Relevo acidentado e solo rochoso: vilões invisíveis

O especialista destaca que o relevo acidentado e o solo basáltico de Concórdia, potencializado pelo peso da trafegabilidade de veículos pesados sobre as ruas, também contribuem para o rompimento das tubulações. “O sistema sofre ainda grande pressão hidráulica, o que favorece o rompimento dos encanamentos e consequentemente os vazamentos. Além disso, as redes são antigas e muitas vezes desproporcionais à demanda atual. Perder água tratada é inconcebível: ela vem de longe, tem custo alto e é essencial para a vida. É preciso investir na modernização das redes e cuidar caprichosamente desse insumo fundamental”, defende.

Marchesan reforça que o consumo consciente também contribui para melhorar a gestão e pode ser parte da solução. “A população pode ajudar comunicando vazamentos e usando a água com racionalidade. Aproveitar a água da chuva, reutilizar o que for possível e evitar desperdícios são atitudes que fazem muita diferença. Perder água tratada não é apenas prejuízo financeiro, é um ato de desrespeito ambiental”, alerta.

Índice de desperdício de água potável no Brasil é de 37,78%

Um estudo do Instituto Trata Brasil mostra que, em 2024, o índice de desperdício de água potável na distribuição do país foi de 37,78%, volume suficiente para abastecer 54 milhões de brasileiros por ano. Também daria para abastecer, com folga, todos os brasileiros atualmente sem acesso à água - aproximadamente 32 milhões de habitantes.

No Brasil, a definição de nível aceitável de perdas de água é da Portaria 490/2021 do Ministério do Desenvolvimento Regional. A Portaria diz que, para um município contar com níveis excelentes, deve ter no máximo 25% em perdas na distribuição, além de 216 litros por ligação por dia em perdas por ligação. No entanto, a projeção de desperdício ainda é bem acima da média dos países desenvolvidos, que é de 15%.

Conforme dados do Instituto, essas perdas acontecem por diferentes motivos e, embora seja impossível zerá-las, o nível de desperdício precisa ser o mínimo possível para evitar impactos negativos ao meio ambiente, quanto menor a perda, menos água as concessionárias precisam captar dos mananciais, redução do volume de tratamento, redução de custos operacionais e alívio geral do ecossistema.

Tecnologia e gestão reduzem o desperdício


Concórdia está entre os municípios catarinenses que avançam na busca por soluções para reduzir as perdas de água tratada e cumprir as metas do Marco Legal do Saneamento, que prevê universalização do serviço até o ano de 2033. Entre os gargalos a serem superados pelo Estado e país, a universalização do saneamento passa pela eficiência no controle de perdas de água.

Desde o início da concessão, a Concórdia Saneamento vem executando um plano intenso de recuperação do sistema de captação de água nos Rios Jacutinga e Suruvi e das redes de distribuição de água. Entre janeiro e setembro, as equipes identificaram e repararam cerca de 1.400 vazamentos, percorrendo 600 quilômetros de tubulações em busca de irregularidades de vazamentos na rede de distribuição e que geram desperdício de água. O esforço e as ações resultaram em uma redução de 17,5% nas perdas, que caíram para 43,7%, conforme dados mais recentes.

Os efeitos já são percebidos por muitos moradores e usuários de água. Em abril deste ano, a concessionária registrou 1.233 reclamações por falta de água; em setembro, o número caiu para 150, uma redução de 87,8%. “Esses resultados mostram que estamos no caminho certo. O controle das perdas tem impacto direto na regularidade do abastecimento”, afirma o superintendente da empresa, José Roberto Epstein.

Tecnologia a serviço da água

A melhora nos indicadores foi impulsionada pela adoção de novas tecnologias e pela modernização operacional no conjunto do sistema. Logo nos primeiros meses, a empresa passou a utilizar equipamentos de alta precisão, como hastes de escuta eletrônica e geofones, capazes de identificar ruídos e vibrações causados por vazamentos sem necessidade de escavações. A técnica, semelhante a um ultrassom aplicado às tubulações, permite localizar falhas com agilidade e precisão.
Outro avanço importante foi a criação do Centro de Controle Operacional (CCO), implantado em tempo recorde. O sistema digital permite o monitoramento remoto das principais unidades de abastecimento, acompanhando em tempo real o comportamento hidráulico da rede. “O CCO representa um salto de eficiência. Ele nos permite agir antes que um problema se transforme em desabastecimento”, explica Epstein.

Modernização e investimento contínuo

A concessionária também instalou válvulas reguladoras de pressão (VRPs), substituiu trechos críticos de rede e iniciou a renovação do parque de hidrômetros - cerca de 23 mil unidades devem ser trocadas até 2030. Além disso, vem modernizando equipamentos antigos e mantendo motobombas reservas para garantir o abastecimento em situações emergenciais.

Nos últimos meses, foram higienizados e inspecionados 117 reservatórios, sendo 31 de concreto e 86 de fibra de vidro. Desses, 20 foram reativados e 40 tiveram vazamentos corrigidos, aumentando em 400 metros cúbicos a capacidade de armazenamento, volume suficiente para abastecer cerca de 40 famílias por um mês. “As ações de combate às perdas trazem ganhos diretos de eficiência operacional, mas também representam um compromisso ambiental e social com a comunidade”, reforça o superintendente.

Olhar para o futuro

O contrato de concessão da Concórdia Saneamento com o Município prevê investimentos superiores a R$ 300 milhões ao longo dos 30 anos de contrato. Entre as obras estruturantes estão uma nova captação de água no Rio Uruguai, a construção de uma nova Estação de Tratamento de Água (ETA), ampliação das redes coletoras de esgoto e modernização das plantas de tratamento existentes. “Estamos trabalhando para cumprir as metas do Marco Regulatório do Saneamento até 2033. O desafio é grande, mas os primeiros resultados mostram que estamos no caminho certo para garantir um serviço mais eficiente, sustentável e seguro para a população”, afirma a empresa.

Por Rosilene Fochesatto/OJ
Crédito das fotos: Internet e Concórdia Saneamento

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