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Entre a máquina e o argumento: o dever humano de pensar

Publicado em: 26/11/2025 14:20

Em tempos de respostas automáticas, pensar com autenticidade virou ato de coragem

Entre a máquina e o argumento: o dever humano de pensar

A inteligência artificial já está em todo lugar: sugere respostas no WhatsApp, cria imagens, redige textos, resume documentos, orienta estudos e até produz argumentos aparentemente convincentes. A tecnologia facilita, organiza e acelera — mas também cria novos problemas, especialmente quando substitui a reflexão humana por frases automáticas.

Do ponto de vista jurídico, esse cenário traz desafios reais. Hoje, qualquer pessoa pode gerar um texto em segundos e apresentá-lo como opinião própria. Mensagens são encaminhadas como se fossem confissões, prints circulam como se fossem provas, documentos são elaborados sem verificação mínima. E, nesse ambiente, cresce a confusão: o que foi realmente dito? Quem é o autor de determinada afirmação? Houve intenção? Houve má-fé? Houve dano?

O uso irrefletido da Inteligência Artificial tem produzido situações delicadas. Há quem confie em modelos automáticos para redigir um contrato e depois descobre que cláusulas essenciais ficaram de fora. Há quem use textos prontos para acusar, criticar ou insinuar — sem perceber que uma palavra mal colocada pode gerar responsabilidade civil. E há ainda estudantes que apresentam trabalhos feitos inteiramente por Inteligência Artificial, criando conflitos escolares e familiares porque não conseguiram explicar aquilo que “entregaram”.

A tecnologia, em si, não é o problema. O risco aparece quando o usuário abdica da compreensão e deixa que a máquina fale por ele. A Inteligência Artificial pode ajudar a estudar, esclarecer dúvidas, organizar pesquisas e até revisar documentos. Mas não substitui o conhecimento, a intenção, a responsabilidade e a autenticidade — valores que continuam sendo humanos.

No Direito, isso se torna ainda mais evidente. A análise jurídica exige contexto, interpretação, coerência e boa-fé. Não basta que um texto “pareça” convincente; é preciso que seja verdadeiro, compreendido e responsável. Um argumento criado por Inteligência Artificial sem reflexão pode gerar mal-entendidos, conflitos e até disputas formais sobre autoria e veracidade. Um print automatizado pode se transformar em discussão sobre prova. Um documento genérico pode resultar em prejuízo financeiro ou contratual.

Por isso, mais do que discutir a tecnologia, é fundamental discutir o uso que fazemos dela. A Inteligência Artificial é ferramenta potente, útil e transformadora. Mas ferramenta não pensa; quem pensa é quem a utiliza. E, sobretudo no mundo jurídico, pensar faz diferença: evita conflitos, previne perdas e protege direitos.

Em um tempo de respostas artificiais, manter a autenticidade se tornou quase um ato de coragem. O diálogo verdadeiro exige responsabilidade. A opinião própria exige reflexão. E as decisões que impactam nossa vida, sejam elas patrimoniais, familiares ou profissionais continuam exigindo orientação segura e humana.

Porque, no fim das contas, o problema não é usar inteligência artificial. O problema é esconder-se atrás dela quando faltam argumentos.

Por Fabiano Caitano
Advogado – OAB/SC 15.887

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